Antes de Resident Evil ser uma franquia sobre bioterrorismo global, agentes especiais, vilas europeias, parasitas, moldes, castelos góticos e conspirações internacionais, havia uma cidade.
Raccoon City.
Uma cidade americana aparentemente comum, cercada por montanhas, protegida por uma delegacia, sustentada por uma grande empresa farmacêutica e condenada por segredos que quase ninguém entendia. Nas ruas, havia lojas, hospitais, bares, bondes, escritórios, cidadãos, policiais, jornalistas, estudantes e famílias. A normalidade estava em todos os lugares — até que ela começou a apodrecer.
Raccoon City é o coração emocional de Resident Evil porque representa o momento em que o horror deixou de ser um segredo escondido em uma mansão e se espalhou para o mundo real. A Mansão Spencer era um pesadelo isolado. Raccoon City era uma sociedade inteira entrando em colapso.
Foi ali que Jill Valentine enfrentou a perseguição de Nemesis. Foi ali que Leon S. Kennedy chegou para seu primeiro dia de trabalho e encontrou uma cidade morta. Foi ali que Claire Redfield procurou o irmão e acabou protegendo uma criança. Foi ali que William Birkin transformou ciência em monstruosidade. Foi ali que a Umbrella deixou de ser apenas uma empresa suspeita e se tornou a responsável por uma tragédia impossível de esconder.
E mesmo depois de destruída, Raccoon City nunca desapareceu. Ela continuou assombrando Leon, Jill, Claire, Chris, a Umbrella, o governo, os sobreviventes e, décadas depois, a própria franquia. Não por acaso, Resident Evil Requiem trouxe a série de volta às ruínas da cidade, conectando Grace Ashcroft e Leon Kennedy ao trauma do Incidente de Raccoon City. A página oficial da Capcom descreve Requiem como uma história em que Grace e Leon precisam encarar seus passados e descobrir a verdade por trás do incidente que mudou o mundo de Resident Evil para sempre.
Essa é a história de Raccoon City: a cidade que morreu para que Resident Evil pudesse nascer de verdade.

Índice
- Por Que Raccoon City é o Coração de Resident Evil
- A Cidade Normal que Já Estava Condenada
- Umbrella Corporation: A Empresa que Comprou a Cidade
- A Mansão Spencer: O Primeiro Aviso Ignorado
- R.P.D.: A Delegacia que Virou Labirinto de Horror
- A Queda de Raccoon City
- Jill Valentine e Nemesis: A Cidade Como Caçada
- Leon, Claire e Sherry: A Cidade Como Trauma de Origem
- William Birkin, G-Virus e o Laboratório Sob a Cidade
- A Destruição: Quando Raccoon City Foi Apagada do Mapa
- Os Sobreviventes: Quem Saiu da Cidade Nunca Saiu de Verdade
- Raccoon City Como Personagem
- Raccoon City no Brasil: PlayStation, Locadoras e Medo de Madrugada
- Resident Evil Requiem: O Retorno às Ruínas
- O Legado: Por Que Raccoon City Nunca Morreu
- Conclusão: A Cidade Que Resident Evil Nunca Superou
- Fontes e Referências
Por Que Raccoon City é o Coração de Resident Evil
Raccoon City é importante porque ela transforma Resident Evil de uma história de monstros em uma história de consequências.
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No primeiro jogo, o horror ainda parece restrito a um lugar específico. A Mansão Spencer é isolada, cercada por floresta, distante da rotina urbana. Ela funciona quase como um castelo assombrado moderno: cheia de portas trancadas, corredores silenciosos, laboratórios secretos e criaturas que não deveriam existir.
Mas Raccoon City muda tudo.
Quando o surto chega à cidade, Resident Evil deixa de ser apenas sobre sobreviver a uma instalação secreta. Passa a ser sobre a falência de uma sociedade inteira. A polícia não consegue proteger. O hospital não consegue curar. O governo não consegue explicar. A empresa que sustentava a cidade é a mesma que a destruiu.
Essa é a força simbólica de Raccoon City. Ela é uma cidade comum tomada por uma verdade que estava escondida debaixo dela. Por isso ela se tornou tão marcante: porque o horror de Resident Evil funciona melhor quando parece que poderia estar atrás da próxima esquina.
A própria Capcom, ao relembrar a história da série antes de Resident Evil Requiem, separa os primeiros jogos dessa forma: o Resident Evil original começa com Chris Redfield e Jill Valentine encontrando uma mansão abandonada, enquanto Resident Evil 2 e Resident Evil 3 levam a ação diretamente para Raccoon City pelos olhos de Leon, Claire e Jill.

A Cidade Normal que Já Estava Condenada
Raccoon City funciona tão bem porque começa como uma cidade reconhecível. Ela não é um reino fantástico, uma nave espacial ou uma fortaleza militar. É uma cidade com ruas, restaurantes, delegacia, hospital, universidade, lojas, metrô, becos, esgotos e moradores que provavelmente acreditavam viver em um lugar comum.
Esse detalhe é essencial.
O terror de Raccoon City não nasce apenas dos zumbis. Nasce do contraste entre cotidiano e colapso. Um corredor de delegacia deveria ser seguro. Uma ambulância deveria representar socorro. Um hospital deveria salvar vidas. Um policial deveria controlar a situação. Em Resident Evil, tudo isso falha.
A cidade é assustadora porque mostra o momento em que as instituições deixam de funcionar. Primeiro, surgem boatos. Depois, desaparecimentos. Depois, mortes estranhas. Depois, confusão. Depois, isolamento. Depois, hordas nas ruas. Quando os personagens percebem a escala do desastre, a cidade já está perdida.
Esse tipo de horror é diferente do susto simples. Ele cria uma sensação de irreversibilidade. Raccoon City não está apenas em perigo. Ela já foi condenada antes mesmo de o jogador chegar.
Umbrella Corporation: A Empresa que Comprou a Cidade
Raccoon City não caiu apenas por causa de um vírus. Ela caiu porque foi construída sobre dependência.
A Umbrella Corporation não era uma presença distante. Era a empresa que gerava empregos, financiava estruturas, influenciava autoridades e se misturava à vida cotidiana da cidade. Esse é um dos aspectos mais fortes da mitologia de Resident Evil: a grande vilã não entra em Raccoon City como invasora. Ela já está lá. Ela é parte da cidade.
Isso transforma Raccoon City em uma crítica de horror corporativo. A Umbrella representa a empresa poderosa o bastante para comprar confiança, esconder crimes e transformar cidadãos em estatística. Sua fachada farmacêutica promete saúde. Seus laboratórios produzem armas biológicas. Sua presença pública parece progresso. Sua presença subterrânea é apocalipse.
Por isso, a queda da cidade é também a queda de uma mentira. Raccoon City mostra o que acontece quando uma comunidade inteira é construída em torno de uma corporação que vê seres humanos como matéria-prima.
Resident Evil Requiem reforça essa ligação ao retornar à narrativa de Raccoon City e às maquinações secretas da Umbrella. Em entrevista publicada no PlayStation Blog, o produtor Masato Kumazawa afirmou que Requiem foi pensado para continuar uma narrativa enraizada em Raccoon City e nos segredos da Umbrella, considerando a cidade o cenário mais adequado para o aniversário de 30 anos da franquia.

A Mansão Spencer: O Primeiro Aviso Ignorado
A tragédia de Raccoon City começa antes das ruas serem tomadas. Começa nas Montanhas Arklay, na Mansão Spencer, onde a equipe S.T.A.R.S. descobre que monstros, vírus e experimentos não eram rumores — eram realidade.
Resident Evil 1 é, em retrospecto, o primeiro alarme. Chris Redfield, Jill Valentine e os outros sobreviventes saem da mansão sabendo que algo gigantesco está errado. Mas a verdade não chega ao público com força suficiente para impedir o desastre seguinte.
Esse é um detalhe trágico: Raccoon City teve sobreviventes antes de cair. Teve testemunhas. Teve pessoas que viram o horror e tentaram entender. Mas a estrutura de poder ao redor da Umbrella era grande demais para que a verdade se espalhasse a tempo.
A Mansão Spencer é o laboratório do segredo. Raccoon City é o resultado do segredo escapando.
A retrospectiva da Capcom no PlayStation Blog resume o começo da franquia com Chris e Jill procurando companheiros desaparecidos e encontrando uma mansão abandonada onde tudo dá errado, com zumbis surgindo e a série assumindo seu nome.

R.P.D.: A Delegacia que Virou Labirinto de Horror
A delegacia de Raccoon City é um dos cenários mais icônicos da história dos videogames porque subverte completamente a ideia de segurança.
O jogador chega ao R.P.D. esperando abrigo. A lógica básica diz que uma delegacia deveria ter armas, autoridade, comunicação, organização e pessoas treinadas. Mas em Resident Evil 2, a delegacia é mais um túmulo do que um refúgio. Policiais foram mortos, corredores estão bloqueados, zumbis circulam pelas salas e o prédio parece esconder tanto quanto protege.
O design do R.P.D. é quase absurdo: estátuas, medalhões, passagens secretas, salas trancadas, cofres, puzzles e arquitetura gótica. Mas esse absurdo virou parte da identidade da série. O prédio não é realista como delegacia; é perfeito como espaço de survival horror.
Claire Redfield chega a Raccoon City procurando Chris e acaba explorando a delegacia, encontrando Sherry Birkin e enfrentando ameaças muito maiores do que uma simples infestação. Em publicação oficial da Capcom sobre Resident Evil 2, a empresa descreve Claire indo a Raccoon City, encontrando Leon S. Kennedy e tentando escapar das hordas de zumbis que tomaram a cidade.
O R.P.D. funciona porque é uma versão urbana da Mansão Spencer. Ele tem hub central, portas fechadas, caminhos que se cruzam, áreas que se revelam aos poucos e a sensação constante de que o jogador está decorando um espaço hostil para sobreviver dentro dele.

A Queda de Raccoon City
A queda de Raccoon City não acontece como uma explosão repentina. Ela acontece como uma doença social.
Primeiro, há sinais que parecem isolados. Casos estranhos nas montanhas. Ataques inexplicáveis. Relatórios que não fecham. Boatos. Silêncios. Depois, a cidade começa a perder controle. A polícia é sobrecarregada. Civis entram em pânico. Áreas são bloqueadas. A comunicação falha. O medo se espalha mais rápido do que qualquer explicação oficial.
Quando os jogos mostram a cidade, o desastre já passou do ponto de retorno. Raccoon City não está “entrando” em colapso. Ela está vivendo seus últimos dias.
Resident Evil 3 deixa isso claro ao mostrar Jill Valentine tentando escapar de uma cidade já tomada. A própria Capcom descreve Resident Evil 3 como a história de Jill lutando para escapar de Raccoon City enquanto Nemesis persegue os sobreviventes ligados aos S.T.A.R.S.
O mais assustador é que Raccoon City não cai apenas por falta de força. Ela cai porque quem poderia explicar a verdade não tinha interesse em explicá-la. A Umbrella tenta controlar danos. Autoridades tentam conter pânico. Pessoas comuns tentam entender. Mas o vírus não espera.
Quando o horror chega às ruas, a cidade já não pertence mais aos vivos.
Jill Valentine e Nemesis: A Cidade Como Caçada
Em Resident Evil 3, Raccoon City deixa de ser apenas cenário de sobrevivência e vira um campo de caça.
Jill Valentine é uma das poucas pessoas que entende a ligação entre a Umbrella e os horrores da Mansão Spencer. Por isso, sua presença na cidade é perigosa. Ela não é apenas uma sobrevivente. Ela é uma testemunha.
Nemesis surge como a resposta da Umbrella a esse problema. Não é apenas uma criatura. É uma ferramenta de apagamento. Ele persegue membros dos S.T.A.R.S., elimina pontas soltas e transforma cada rua em ameaça. O terror de Nemesis não está só em sua força, mas em sua persistência. Ele representa a ideia de que a Umbrella não quer apenas esconder seus crimes — quer matar quem lembra deles.
Jill atravessa ruas destruídas, prédios vazios, hospitais, esgotos e instalações industriais enquanto tenta escapar. Mas a cidade não facilita. Raccoon City em Resident Evil 3 é mais aberta do que a delegacia de Resident Evil 2, mas essa abertura não traz liberdade. Traz exposição.
A fuga de Jill é uma das formas mais fortes de entender Raccoon City: não como lugar para explorar, mas como lugar que está tentando matar você.

Leon, Claire e Sherry: A Cidade Como Trauma de Origem
Resident Evil 2 apresenta Raccoon City por outro ângulo: o da chegada tardia.
Leon S. Kennedy chega para seu primeiro dia como policial. Claire Redfield chega procurando o irmão. Nenhum dos dois tem dimensão real do que está prestes a encontrar. Isso cria uma das dinâmicas mais fortes da franquia: dois personagens que entram na cidade ainda relativamente inocentes e saem dela marcados para sempre.
Leon se torna um sobrevivente do Incidente de Raccoon City antes mesmo de se tornar agente. Esse trauma define sua vida futura. A Capcom descreve Leon, em Resident Evil Requiem, como um dos sobreviventes do incidente, alguém que respondeu a numerosos surtos desde aquele dia e agora retorna como agente veterano.
Claire, por sua vez, transforma sua busca pessoal em uma missão de proteção. Ao encontrar Sherry Birkin, ela deixa de ser apenas alguém procurando Chris. Ela se torna a pessoa que tenta salvar uma criança de uma cidade que adultos, empresas e governos falharam em proteger.
Sherry é o símbolo mais cruel da tragédia. Ela não é responsável por nada. É filha de cientistas envolvidos com a Umbrella, perseguida por forças que não entende e carregando no próprio corpo as consequências dos pecados dos adultos ao redor.
Leon, Claire e Sherry fazem Raccoon City parecer pessoal. A cidade não é apenas um desastre urbano. É o lugar onde vidas são quebradas e identidades são formadas.

William Birkin, G-Virus e o Laboratório Sob a Cidade
Raccoon City assusta porque o horror não está apenas nas ruas. Está embaixo delas.
Enquanto cidadãos viviam suas rotinas, laboratórios secretos operavam sob a cidade. Esse contraste é um dos elementos mais fortes da franquia: a superfície mostra civilização; o subsolo revela a verdade.
William Birkin é uma figura central nesse colapso. Cientista brilhante, ambicioso e ligado à criação do G-Vírus, ele representa a obsessão por controle que atravessa Resident Evil. O problema de Birkin não é apenas científico. É moral. Ele enxerga sua pesquisa como legado, propriedade e poder, mesmo quando ela ameaça destruir tudo ao redor.
Quando Birkin se torna parte da própria monstruosidade que ajudou a criar, Resident Evil deixa claro seu tema principal: os monstros da série quase sempre começam como decisões humanas.
O laboratório subterrâneo reforça a ideia de Raccoon City como cidade partida em duas. Acima, placas, ruas, delegacia e rotina. Abaixo, vírus, cobaias, armas biológicas e corredores esterilizados onde a ética morreu muito antes dos cidadãos.
É isso que faz a cidade ser tão simbólica: Raccoon City não foi invadida pelo horror. Ela foi construída sobre ele.
A Destruição: Quando Raccoon City Foi Apagada do Mapa
A destruição de Raccoon City é um dos momentos mais importantes de Resident Evil porque mostra que o desastre havia passado do limite de contenção.
Quando a cidade é destruída para impedir a propagação do vírus, a franquia muda de escala. O incidente deixa de ser uma tragédia local e se torna um marco histórico dentro daquele universo. Depois de Raccoon City, o mundo não pode mais fingir que armas biológicas são teoria, exagero ou conspiração.
A decisão de apagar a cidade também carrega uma violência simbólica enorme. Matar Raccoon City é tentar matar a evidência. É uma ação de contenção, mas também de silêncio. A cidade destruída vira memorial, crime e segredo ao mesmo tempo.
GameSpot, ao contextualizar o retorno da franquia à cidade em Requiem, resume esse ponto: após o surto do T-Vírus, o governo dos Estados Unidos ordenou um ataque com míssil para destruir Raccoon City e erradicar o vírus, e Requiem retorna às ruínas cerca de 30 anos depois.
Mas em Resident Evil, destruir uma cidade não destrói sua memória.
Raccoon City vira fantasma.

Os Sobreviventes: Quem Saiu da Cidade Nunca Saiu de Verdade
Raccoon City não terminou para quem conseguiu escapar.
Jill Valentine saiu da cidade carregando a memória da Mansão Spencer, de Nemesis e da destruição final. Leon Kennedy saiu do primeiro dia de trabalho transformado em sobrevivente de uma tragédia nacional. Claire Redfield saiu com a certeza de que a Umbrella havia destruído famílias inteiras. Sherry Birkin saiu marcada pela pesquisa do próprio pai. Ada Wong saiu como sombra, mistério e testemunha de interesses que iam além da cidade.
Essa é uma das razões pelas quais Raccoon City continua voltando. Ela é o trauma fundador dos personagens mais importantes da franquia.
Leon é talvez o exemplo mais claro. Em Resident Evil 4, ele já não é o novato assustado da delegacia. É um agente treinado. Mas o que aconteceu em Raccoon City continua definindo quem ele é. Em Resident Evil Requiem, a Capcom volta a descrevê-lo diretamente como sobrevivente do Incidente de Raccoon City e agente veterano contra o bioterrorismo.
Grace Ashcroft amplia esse tema para uma nova geração. Ela não é apenas uma nova protagonista. É alguém conectada ao passado por meio da mãe, Alyssa Ashcroft, descrita pela Capcom como sobrevivente do Incidente de Raccoon City e jornalista que continuou investigando a verdade por trás da Umbrella.
Com isso, Raccoon City deixa de ser apenas lembrança dos personagens clássicos. Torna-se herança. Um trauma que passa de sobreviventes para filhos, investigações, arquivos, mortos e ruínas.
Raccoon City Como Personagem
Os melhores cenários de terror funcionam como personagens. A Mansão Spencer é um personagem. Silent Hill é um personagem. A delegacia de Resident Evil 2 é um personagem. E Raccoon City, como conjunto, é talvez o maior personagem de Resident Evil.
Ela tem identidade visual. Tem passado. Tem segredos. Tem evolução. Tem morte. Tem legado.
Raccoon City começa como cidade comum, torna-se cidade infectada, depois cidade sitiada, depois cidade destruída, depois ruína e finalmente memória. Poucos cenários em videogames passaram por uma trajetória tão forte dentro da própria narrativa.
O jogador não lembra de Raccoon City apenas por causa dos monstros. Lembra das ruas vazias, das sirenes, dos corredores do R.P.D., dos arquivos, da chuva, das barricadas, dos helicópteros, do hospital, dos esgotos, dos laboratórios, das portas que se abrem devagar, da sensação de que ninguém virá ajudar.
Raccoon City também funciona porque reúne todos os níveis de horror da franquia:
- o horror biológico dos vírus;
- o horror corporativo da Umbrella;
- o horror urbano do colapso social;
- o horror íntimo dos sobreviventes;
- o horror político da destruição e do encobrimento;
- o horror emocional da memória.
É por isso que ela não é apenas “a cidade do RE2 e do RE3”. Ela é o ponto onde Resident Evil descobriu sua mitologia.

Raccoon City no Brasil: PlayStation, Locadoras e Medo de Madrugada
No Brasil, Raccoon City ganhou uma camada emocional própria.
Para muitos jogadores, Resident Evil 2 e Resident Evil 3 não foram apenas jogos de terror. Foram experiências de locadora, PlayStation 1, memory card, revista de detonado, inglês mal entendido, TV de tubo, quarto escuro e medo real de abrir a próxima porta.
A delegacia de Raccoon City parecia enorme quando vista pela primeira vez. Os puzzles eram difíceis porque muitos jogadores não entendiam todos os documentos. A munição parecia sempre pouca. O som dos zumbis atrás de uma parede criava pânico. Nemesis aparecendo de surpresa em Resident Evil 3 virava história para contar no dia seguinte.
O terror era potencializado por limitações muito específicas daquela época. Pouca informação. Poucos guias acessíveis. Saves limitados. CDs riscados. Controles compartilhados. Alguém sempre dizia que sabia um caminho melhor. Alguém sempre prometia que havia uma arma secreta. Alguém sempre gritava quando o Licker aparecia.
Raccoon City virou memória afetiva porque era uma cidade assustadora dentro do jogo e um ritual fora dele. Não era só jogar. Era reunir coragem, desligar a luz, chamar alguém para assistir e torcer para o memory card funcionar.
Para o público brasileiro, Raccoon City não era apenas lore. Era fim de semana alugado.

Resident Evil Requiem: O Retorno às Ruínas
Resident Evil Requiem transforma Raccoon City em algo novo: não mais a cidade viva em colapso, mas a ruína de uma tragédia que o tempo não conseguiu apagar.
Na página oficial do jogo, a Capcom apresenta Requiem como uma nova era do survival horror, com duas experiências principais: Grace Ashcroft ligada ao horror e Leon S. Kennedy ligado à ação. A página também informa que o jogo foi lançado em 27 de fevereiro de 2026 e inclui as ruínas de Raccoon City entre suas locações.
Grace é uma analista do FBI enviada para investigar mortes misteriosas em um hotel abandonado no Meio-Oeste dos Estados Unidos, justamente o lugar onde sua mãe foi assassinada oito anos antes. Leon, agora agente veterano, também retorna a uma investigação ligada ao legado de Raccoon City. A Capcom descreve que os caminhos de Grace e Leon convergem enquanto eles precisam encarar seus passados e descobrir a verdade por trás do Incidente de Raccoon City.
O retorno a Raccoon City é importante porque não trata a cidade apenas como cenário nostálgico. Trata como ferida aberta. O produtor Masato Kumazawa explicou que a equipe queria voltar a uma história conectada à narrativa central da cidade e às maquinações secretas da Umbrella, depois de Resident Evil 7 e Village explorarem outras partes do universo da franquia.
Esse retorno muda a função da cidade. Em Resident Evil 2 e 3, Raccoon City era presente: uma tragédia acontecendo agora. Em Requiem, ela é passado: uma tragédia que ainda produz consequências.
Isso talvez seja o maior sinal de que Raccoon City nunca foi apenas destruída. Ela foi enterrada viva na memória da série.

O Legado: Por Que Raccoon City Nunca Morreu
Raccoon City nunca morreu porque Resident Evil nunca encontrou outro trauma tão central.
A franquia foi para a Europa em Resident Evil 4. Foi para a África em Resident Evil 5. Espalhou o bioterrorismo pelo mundo em Resident Evil 6. Entrou na casa dos Baker em Resident Evil 7. Visitou uma vila gótica em Village. Mas, de alguma forma, tudo continua voltando à cidade destruída.
Isso acontece porque Raccoon City reúne os elementos mais fortes da série em um só lugar:
- o nascimento da Umbrella como vilã pública;
- a origem traumática de Leon;
- a consagração de Jill como sobrevivente;
- a jornada de Claire como protetora;
- a tragédia de Sherry Birkin;
- a transformação do horror de mansão em desastre urbano;
- a ideia de que uma cidade inteira pode ser sacrificada para esconder um crime.
Raccoon City também é o cenário que melhor equilibra terror pessoal e escala coletiva. Uma mansão assusta porque você está preso. Uma cidade assusta porque todos estão presos.
Por isso, quando a Capcom volta a Raccoon City em Requiem, não está apenas explorando nostalgia. Está voltando ao lugar onde a franquia definiu seu trauma mais poderoso. O próprio PlayStation Blog destacou, em entrevista com Kumazawa, que a proposta de Requiem era oferecer uma nova perspectiva para retornar a Raccoon City, agora como uma casca quebrada e sangrando da cidade original.
Raccoon City morreu dentro da história.
Mas dentro de Resident Evil, ela continua respirando.
Conclusão: A Cidade Que Resident Evil Nunca Superou

Raccoon City é a cidade que Resident Evil nunca superou.
Não porque a franquia não tenha criado outros cenários marcantes. Criou. A vila de Resident Evil 4 é inesquecível. A casa dos Baker é aterrorizante. O castelo de Village virou ícone moderno. Mas Raccoon City é diferente.
Ela é o lugar onde tudo se encontrou.
A conspiração da Umbrella. O nascimento dos sobreviventes clássicos. O colapso urbano. O horror biológico. O silêncio das autoridades. A fragilidade da polícia. A crueldade da ciência. A morte de inocentes. A destruição final. A memória que não passa.
Raccoon City é a prova de que Resident Evil funciona melhor quando o monstro não está apenas na tela. Está na estrutura inteira ao redor dos personagens. Está na empresa que financia a cidade. Está no laboratório sob o chão. Está no relatório ignorado. Está no governo que decide apagar o mapa. Está no sobrevivente que segue vivendo, mas nunca volta a ser a mesma pessoa.
Por isso a cidade continua importante. Ela não é apenas cenário de Resident Evil 2 e 3. Ela é a ferida original da franquia.
Todo grande universo de terror tem um lugar que parece carregar sua alma.
Silent Hill tem Silent Hill.
Resident Evil tem Raccoon City.
E enquanto houver sobreviventes tentando entender o que aconteceu ali, a cidade nunca estará realmente morta.
Fontes e Referências
- Capcom / Resident Evil Requiem — página oficial. Fonte usada para informações atuais sobre Grace Ashcroft, Leon S. Kennedy, a premissa de Requiem, as ruínas de Raccoon City, os personagens e a data de lançamento.
- PlayStation Blog / Capcom — Resident Evil Requiem Producer Masato Kumazawa Q&A. Fonte usada para contextualizar o retorno a Raccoon City, a ligação com a Umbrella e a intenção da Capcom de retomar a narrativa central da franquia.
- PlayStation Blog / Capcom — Prepare for Resident Evil Requiem with a story recap from Capcom. Fonte usada para a retrospectiva oficial dos primeiros jogos, incluindo a Mansão Spencer, Resident Evil 2 e Resident Evil 3 em Raccoon City.
- Capcom News — Claire retorna a Raccoon City. Fonte usada para contextualizar Claire Redfield, Leon S. Kennedy, Sherry Birkin, o R.P.D. e a campanha de Resident Evil 2.
- Capcom / Resident Evil 3. Fonte usada para a premissa de Jill Valentine tentando escapar de Raccoon City e sendo perseguida por Nemesis.
- GameSpot — Resident Evil Requiem Continues “Overarching Narrative” That Began In Raccoon City. Fonte usada como apoio secundário para o retorno às ruínas da cidade, a destruição por míssil após o surto do T-Vírus e o papel de Grace Ashcroft.








