Maculado observa a Árvore Erdtree e as eras de Elden Ring
A história dos Entre Terras se esconde em camadas de impérios, deuses e guerras esquecidas.

Elden Ring não conta sua história em ordem cronológica. Conta em fragmentos, espalhados por descrições de itens, diálogos de NPCs, murais em paredes de dungeons e lembrances de chefes que morreram antes do mundo começar a existir da forma que o jogador conhece. Reconstruir a sequência real de eventos exige que o jogador aceite uma premissa metodológica: nenhuma fonte isolada é suficiente. A história dos Entre Terras só aparece quando se junta tudo.

O que emerge desse processo é uma das mitologias mais densas e coerentes que um jogo já construiu: três eras distintas antes da Ordem Dourada, uma história de ascensão divina que começa num genocídio encoberto, um período de prosperidade que termina em fratricídio em escala continental, e um presente de ruínas e ambição onde o jogador chega depois de tudo ter se despedaçado. E depois, com Shadow of the Erdtree, mais uma camada: segredos que Marika enterrou na própria região onde nasceu.

Este artigo reconstrói a linha do tempo completa de Elden Ring em ordem cronológica, do Crisol Primordial até o estado em que o Maculado encontra o mundo. Há spoilers completos do jogo base e do Shadow of the Erdtree.

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Aviso de spoilers: este artigo revela eventos centrais de Elden Ring e do DLC Shadow of the Erdtree, incluindo o destino de múltiplos personagens e as revelações finais de ambas as campanhas.

Era I: O Crisol e o mundo antes do Anel

Crisol primordial e Placidusax sobre Farum Azula
Antes da Ordem Dourada, o Crisol e os Dragões Antigos dominavam os Entre Terras.

No começo de tudo há o Crisol, descrito nas fontes do jogo como “a forma primordial vital da Árvore Erdtree, o aspecto do cadinho primordial onde toda vida já foi misturada em conjunto.” O Crisol é anterior à Ordem Dourada, anterior à Árvore Erdtree, anterior aos próprios Deuses Exteriores que eventualmente colonizarão os Entre Terras. É o estado original do mundo: uma mistura caótica de formas de vida onde os limites entre espécies ainda não haviam se fixado. Os Cavaleiros do Crisol, encontrados como inimigos no jogo, preservam traços desse período em suas armaduras, características dracônicas e animais que a Ordem Dourada posteriormente erradicaria por serem “abominações”.

É nessa era primordial que os Dragões Antigos dominam os Entre Terras. Não são as criaturas que o jogador encontra espalhadas pelo mapa, versões degeneradas de uma linhagem nobre. São seres de escala cósmica, portadores de tempestades e raios, governando territórios vastos sob a proteção de um deus cujo nome o jogo não registra diretamente. O Senhor dos Dragões era Placidusax, um dragão de cinco cabeças que a Lembrança do Senhor dos Dragões descreve como “Lorde Elden na era antes da Árvore Erdtree”. Seu trono ficava no coração da tempestade além do tempo, na cidade de Farum Azula.

Placidusax esperava o retorno de seu deus. Esse deus fugiu. E continuou esperando, imóvel, enquanto o mundo ao seu redor mudava de forma irreversível.

Era II: A chegada da Vontade Suprema e a conquista dos Entre Terras

Marika Godfrey Maliketh e o nascimento da Ordem Dourada
A ascensão de Marika reuniu conquista, guerra e o selamento da Runa da Morte.

A Vontade Suprema é um Deus Exterior, uma entidade cósmica que existe além dos Entre Terras e que enviou seu vassalo, a Besta do Anel, para o mundo. A Besta do Anel carregava consigo o Anel de Elden, o artefato que seria o princípio da nova ordem do mundo. Antes de se tornar o repositório de leis cósmicas que conhecemos no jogo, o Anel de Elden era uma presença mais abstrata, associada ao Crisol e a uma árvore primordial anterior à Árvore Erdtree.

Antes de Marika, havia outra candidata a encarnar a vontade desse poder: a Rainha de Olhos Sombrios, uma Empírea que liderava os Apóstolos da Pele de Deus, uma facção capaz de matar divindades através da chama negra do Destino-Morte. Ela havia começado uma caça aos deuses existentes. Maliketh, o meio-irmão de Marika designado como sua Sombra pelos Dois Dedos, destruiu a Rainha de Olhos Sombrios em combate. Com sua derrota, a Runa da Morte foi removida do Anel de Elden e selada dentro da espada de Maliketh, criando a condição fundamental da Ordem Dourada: a morte verdadeira deixaria de existir para os habitantes dos Entre Terras.
Nesse mesmo período, Marika precisava de um consorte guerreiro. Hoarah Loux era um chefe brutal, líder de um clã de guerreiros que venciam batalhas por força pura. Ela o domesticou com a Graça divina, transformando-o em Godfrey, o primeiro Lorde do Anel. Juntos, completaram a conquista dos Entre Terras, subjugando os Gigantes do Fogo nas montanhas do norte, destruindo o deus-pássaro chamado Deus Caído, e eliminando qualquer oposição à nova hegemonia. A Ordem Dourada estava estabelecida.

Era III: A Terra das Sombras e os segredos de Marika

Messmer diante da Terra das Sombras em chamas
Messmer conduziu a campanha de extermínio ordenada por Marika e acabou abandonado na Terra das Sombras.

O Shadow of the Erdtree revelou uma era que o jogo base havia ocultado completamente: a da Terra das Sombras, a região de origem de Marika, e da purga que ela mandou realizar ali antes de que qualquer memória pública dos Entre Terras se consolidasse.

Marika nasceu na Aldeia dos Xamãs, em Scaduview, dentro da Terra das Sombras. Seu povo, os Xamãs, eram subjugados pelos Cornudos, uma raça que adorava o Crisol e que usava os corpos dos Xamãs em rituais violentos, transformando-os em recipientes sagrados. A ascensão de Marika à divindade, num ato que o jogo descreve como “sedução e traição” no topo da torre de Enir-Ilim, foi também uma traição dos Cornudos que dominavam aquela terra.

Uma vez deusa, Marika não perdoou. Enviou seu filho Messmer, nascido com uma serpente abissal dentro de si e controlado por um selo no olho posto pela própria mãe, para purgar os Cornudos da Terra das Sombras. A campanha de Messmer foi uma exterminação: cidades incendiadas, uma raça inteira eliminada por ordem divina. O que tornou isso ainda mais perturbador é que Messmer cumpriu a missão com sinceridade absoluta, acreditando servir à mãe que amava. Depois de terminar a purga, foi selado na Terra das Sombras e esquecido. Marika cobriu a região com a Scadutree, uma árvore-sombra que ocultava a evidência do genocídio de sua própria terra natal.

Os Cornudos sobreviventes eventualmente se tornaram os Omen nos Entre Terras, a raça de chifres considerada blasfêmia pela Ordem Dourada. Dois dos filhos da própria Marika com Godfrey nasceram Omen: Morgott e Mohg. A crueldade do ciclo não poderia ser mais explícita.

Era IV: A Idade Dourada e os exílios

Era dourada de Leyndell e o exílio dos primeiros Maculados
A prosperidade da Ordem Dourada terminou para Godfrey e seus guerreiros quando perderam a Graça.

Com a Ordem Dourada consolidada e os inimigos subjugados, os Entre Terras entraram em seu período de maior prosperidade. Marika e Godfrey governavam. Godwyn, o Dourado, o filho de ambos, tornou-se o semideus mais admirado do mundo, suficientemente virtuoso para transformar inimigos em aliados. O dragão Fortissax, derrotado em batalha por Godwyn, tornou-se seu amigo leal. Os Nox, uma civilização que havia tentado criar armas capazes de ferir a própria Vontade Suprema, foram banidos para baixo do solo por alta traição, condenados a viver sob um céu noturno falso nas Cidades Eternas.

Mas a prosperidade tinha prazo. Quando a última guerra terminou e Godfrey não tinha mais inimigos a conquistar, Marika retirou a Graça dele e de seus guerreiros, tornando-os Maculados, e os expulsou dos Entre Terras. Foi assim que os primeiros Maculados foram criados, precursores de todos os que viriam depois, incluindo o jogador.

Sem Godfrey, Marika precisava de um novo consorte. Radagon havia sido enviado para conquistar Liurnia dos Lagos, governada pela Rainha Carian Rennala. A guerra foi longa. No final, Radagon pediu paz, purificou-se e declarou amor a Rennala. Casaram-se. Tiveram três filhos de cabelos vermelhos: Rykard, Radahn e Ranni. Então Marika ficou disponível e Radagon simplesmente foi embora, deixando Rennala abraçando um ovo âmbar no chão de uma biblioteca. Com Radagon como segundo Lorde do Anel, Marika teve mais dois filhos: os gêmeos Miquella e Malenia, ambos Empíreos, ambos amaldiçoados desde o nascimento.

Era V: A Noite das Facas Negras e o Estilhaçamento

Assassinas da Faca Negra Godwyn e Ranni sob a lua
A Noite das Facas Negras destruiu a alma de Godwyn e libertou Ranni de seu corpo empíreo.

Em algum momento durante a Idade Dourada, Marika começou a duvidar. A Vontade Suprema havia transformado ela num instrumento. A imortalidade que ela havia criado ao remover a Runa da Morte era, na leitura dela, uma gaiola dourada. O crescente desconforto dela com a Ordem que ela mesma havia fundado se manifestou de formas que o jogo registra apenas indiretamente.

Ranni, filha de Rennala e Radagon, Empírea recusando seu papel designado, roubou um fragmento da Runa da Morte de Maliketh. Forjou Facas Negras imbuídas de Destino-Morte. Na noite da conspiração, assassinas entraram em Leyndell e mataram Godwyn, o filho mais amado de Marika. Ranni simultaneamente matou seu próprio corpo físico, trocando de carne por uma boneca para escapar do controle dos Dois Dedos.

Godwyn morreu de forma incompleta: apenas a alma foi destruída, o corpo permaneceu biologicamente ativo. Enterrado nas raízes da Árvore Erdtree, transformou-se gradualmente no Príncipe da Morte, semente de todos os Que Vivem na Morte que infestam os Entre Terras.

A resposta de Marika foi despedaçar o Anel de Elden. Por raiva, por desespero, ou como gesto deliberado de sabotagem contra a Vontade Suprema, talvez jamais saibamos com precisão. Radagon, seu outro eu, usou o mesmo martelo para tentar reparar o Anel. Falhou. Como punição, a Besta do Anel crucificou Marika dentro da Árvore Erdtree. Os fragmentos do Anel corromperam os semideuses que os herdaram. O Estilhaçamento começou.

Era VI: O Estilhaçamento e a guerra dos semideuses

Malenia enfrenta Radahn durante a guerra do Estilhaçamento
O duelo entre Malenia e Radahn transformou Caelid em uma cicatriz da guerra entre semideuses.

Sem Marika, sem Lorde do Anel, sem Ordem Dourada funcional, os semideuses se despedaçaram junto com o Anel. Godrick, descendente distante de Godfrey, enfraquecido na linhagem e sempre humilhado por isso, foi para Tempestovéu e começou a enxertar membros roubados no próprio corpo. Morgott, o gêmeo Omen banido debaixo de Leyndell, escolheu proteger a capital de tudo que tentava tomá-la, inclusive os outros semideuses. Mohg desceu para seu domínio subterrâneo e construiu a Dinastia Mohgwyn banhada em sangue. Rykard fundiu-se com uma serpente abissal em seu vulcão. Radahn fechou os céus no Norte para impedir as estrelas de cair, destruindo sua própria mente para sustentar a magia necessária.

Malenia, enviada por Miquella para matar Radahn, liberou a Podridão Escarlate em Caelid e destruiu os dois exércitos num impasse devastador. O mapa de Caelid, a região mais horrorosa dos Entre Terras, é a cicatriz permanente desse confronto. Miquella, enquanto isso, havia orquestrado seu próprio “sequestro” por Mohg, usando o irmão como instrumento para atravessar para a Terra das Sombras e executar seu plano de ascensão à divindade.

Os Maculados, aqueles sem Graça, tentaram chegar ao Anel de Elden para se tornarem Lordes. Todos falharam. A mais recente tentativa havia sido Vyke, o mais próximo que alguém chegou antes do jogador. Ele acabou consumido pela Chama da Loucura.

Presente do jogo: o Maculado e o que resta

Maculado diante dos caminhos arruinados dos Entre Terras
O Maculado chega depois do colapso e precisa decidir que ordem nascerá das ruínas.

É neste ponto que o jogador acorda. Os Entre Terras são uma ruína coerente: estruturas da Idade Dourada ainda de pé, mas deteriorando. Semideuses entrincheirados em seus territórios. A Árvore Erdtree ainda iluminando o horizonte, ainda orientando a Graça, mas sem Marika para governar o que a Graça significa. Os Dois Dedos, servos da Vontade Suprema, ainda emitindo comandos, mas visivelmente frágeis, velhos, tremendo.

A missão declarada é reunir as Grandes Runas, acender a Árvore Erdtree e tornar-se o novo Lorde do Anel. O que isso significa, quem o Maculado serve ao fazê-lo, e se o Anel de Elden deve ser reconstruído ou transformado ou destruído, depende de qual das seis linhas finais o jogador escolhe seguir. Cada final é uma resposta diferente à mesma pergunta: o que fazemos com um mundo cujas fundações foram construídas sobre manipulação, genocídio e o controle cósmico de entidades que nunca se importaram com os seres que habitavam os Entre Terras?

Epílogo: Shadow of the Erdtree e a última camada

Maculado enfrenta Miquella e Radahn na Porta da Divindade
A jornada de Shadow of the Erdtree termina diante da ascensão incompleta de Miquella.

Paralelo a toda essa história, Miquella havia estado executando um plano que abrangia décadas. Após o Maculado derrotar Mohg e adentrar a Terra das Sombras, segue os rastros do Empíreo até a torre de Enir-Ilim, a mesma onde Marika havia ascendido à divindade. Lá encontra o confronto final: Radahn ressuscitado no corpo de Mohg como Consorte Prometido, e Miquella emergindo da Porta da Divindade num momento que deveria ser sua apoteose.

O Maculado derrota os dois. Miquella, que havia descartado tudo de si mesmo no caminho incluindo o amor que era a fundação de sua visão de mundo, não inaugura a Era da Compaixão. E Marika, ainda crucificada dentro da Árvore Erdtree nos Entre Terras, continua presa, guardando o corpo de Radagon que tenta consertar o que ela destruiu.

A linha do tempo de Elden Ring não tem final feliz. Tem finais possíveis, cada um carregando o peso do que foi necessário para chegar até ali. Uma deusa que queimou sua terra natal para esconder sua origem. Um filho leal enviado para matar e depois esquecido. Um Empíreo que descartou o amor em nome da compaixão. Um Lorde de Dragões esperando um deus que fugiu há milênios. O que todos compartilham é a recusa de aceitar o mundo como estava, e o custo enorme dessa recusa. Nos Entre Terras, ninguém muda o mundo sem primeiro despedaçá-lo.